Breve história dos Dispositivos Intrauterinos (DIU)
DIU de cobre

Breve história dos Dispositivos Intrauterinos (DIU)

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A história da contracepção humana, e especialmente a história dos dispositivos intrauterinos (DIUs), é bastante interessante, repleta de idas e vindas, de aceitação e de rejeição por parte das sociedades. A primeira menção à utilização de um objeto inserido na cavidade do útero como forma de contracepção é atribuída a Hipócrates, considerado o pai da medicina. Teria sido ele o primeiro a notar que a colocação de pequenos objetos no interior do útero funcionava como uma barreira física que impedia a fecundação.

Saindo da esfera da contracepção humana, mas não menos interessante, há também a menção histórica de que era prática frequente entre mercadores árabes a inserção de pequenas pedras no útero de camelos fêmeas, principalmente em longas travessias no deserto, capazes de evitar a gravidez. No entanto, apesar destas menções históricas, a real utilização e estudo sistemático dos dispositivos intrauterinos parecem ter se dado somente a partir do século XX.

As primeiras pesquisas


Em artigo científico que traça o histórico dos DIUs, o pesquisador Lazar Margulies infere que a alta taxa de mortalidade infantil e perinatal, restrições religiosas, bem como os possíveis perigos da manipulação do útero em tempos onde ainda nem se pensava em assepsia, talvez tenham sido alguns dos motivos que mantiveram médicos mais responsáveis distantes deste tipo de contracepção.

O primeiro estudo a respeito de dispositivos intrauterinos foi publicado na Alemanha, em 1909, quando o Dr. Richard Richter reportou ter inserido anéis feitos de intestino de bichos da seda dentro do útero de mulheres, com boas taxas de contracepção. O estudo, no entanto, não teve grande repercussão.

Naquele tempo, pessários (espécies de diafragmas) feitos de borracha e de vários tipos de metais, competiam com os capuzes cervicais, e eram o que de mais avançado havia em contracepção feminina. No entanto, a eles estavam associadas diversas infecções, o que os tornou não recomendados pela comunidade médica.

Já na metade da década de 1920, Karl Pust, sem fazer nenhuma citação ao estudo de Richter, recomendou que um botão de vidro revestido de seda, amarrado a uma haste revestida com fio de seda, fosse colocado no útero a fim de cobrir o cérvix.

Quase na mesma época o berlinense Ernest Graenfenberg começou a substituir o bicho-da-seda por anéis feitos de prata e, posteriormente, feitos de uma liga de cobre, níquel e zinco. A prata foi deixada de lado após notarem que este metal era absorvido pelo organismo das mulheres, causando diversos problemas de saúde.

O método contraceptivo desenvolvido por Graenfenberg foi bastante utilizado na Inglaterra e em seus protetorados à época, como Canadá e Austrália. No entanto, nos EUA, o método era considerado pela sua comunidade médica ineficiente e como um potencial causador de infecções uterinas, e até mesmo de câncer.

O DIU como instrumento de controle e planejamento populacional


Só mais à frente, no final da década de 1950, quando o crescimento populacional desordenado entra em pauta como uma questão pública, é que os EUA passam a dedicar maior interesse aos dispositivos intrauterinos.

Em 1963 surge o dispositivo Birnberg, composto de polietileno, cuja parte superior parecia um arco e a parte inferior tinha uma forma mais retangular, e apresentava boas taxas de eficiência, de cerca de 90%, e passa a ser adotado por diversos institutos médicos pelo país.

Nos anos seguintes, novos dispositivos intrauterinos foram lançados no mercado, com formatos e materiais diversos. No entanto, alguns problemas associados a estes dispositivos de segunda geração começaram a ser relatados, envolvendo casos de obstrução intestinal e até mesmo algumas de mortes. O principal responsável por estes casos foi o produto Dalkon Shields, cuja produção foi suspensa em 1974.

Em decorrência destes casos envolvendo o Dalkon Shields, a imagem dos dispositivos intrauterinos ficou um tanto quanto maculada, principalmente nos Estados Unidos. A confiança nos DIUs, entretanto, só começou a ser reestabelecida mais à frente, quando o DIU de Cobre se mostrou seguro e eficaz, reconquistando a confiança de médicos e mulheres em busca de contracepção.

O surgimento do Dispositivos Intrauterinos (DIU) de Cobre


O primeiro DIU de Cobre foi desenvolvido em 1969, por Jaime Zipper, que tinha formato de “T”, e possuía uma bobina de cobre enrolada em sua haste. Zipper descobriu que o cobre era um espermicida bastante eficaz e, a partir daí, começou a realizar experimentações para encontrar a quantidade ideal necessária deste metal a fim de obter a máxima eficácia do dispositivo.

Atualmente, existem DIUs de 200mm2 ou 300mm2 de cobre no mercado, apresentando altíssimos índices de contracepção, da ordem de mais de 99%. Isso torna o método confiável e um importantíssimo aliado no planejamento familiar.

Além do mais, a inserção do DIU de Cobre se dá de forma simples e rápida no próprio consultório médico, sendo um procedimento seguro e indolor na maioria dos casos.

O DIU de Cobre é disponibilizado gratuitamente pelo SUS desde o ano 2000 e, no final de 2017 também passou a ser disponibilizado em maternidades públicas, permitindo a sua inserção em mulheres que buscam evitar uma nova gravidez. Essa nova política tende a aumentar a sua permeabilidade e reconhecimento enquanto método seguro e eficaz de contracepção.

O dispositivo intrauterino de cobre ainda é pouco utilizado no Brasil, sendo o método escolhido por apenas cerca de 1,9% das mulheres em idade fértil. Esta baixa procura se dá, principalmente, em decorrência do desconhecimento e até mesmo de preconceitos em relação ao método.

A tendência, no entanto, é que este número aumente nos próximos anos, já que a confiabilidade e segurança do método é cada vez mais conhecida por todos. Além do mais, a busca por um método contraceptivo que não cause alterações hormonais no organismo das mulheres, como é o caso das pílulas anticoncepcionais, tende a fazer com que o DIU de cobre seja cada vez mais lembrado e procurado.

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